Suzy Lopes de Andrade Aquino, ou como é mais conhecida – Suzy Omma Park tem 54 anos e mora em Nova Iguaçu, município do Rio de Janeiro. É uma fã de K-POP assumida e não liga para quem ache estranho. Em sua trajetória de vida, Suzy enfrentou muitos desafios, o mais impactante foi a síndrome do pânico, uma questão que ela enfrenta até os dias de hoje. No K-POP, ela encontrou a força necessária para combater este mal que atinge milhares de pessoas ao redor do mundo. Isso levou com que abrisse um canal no YouTube em que leva o nome de “Omma”, que significa “mãe” em coreano.

Nesta entrevista concedida exclusivamente ao Koreapost, além de relatar um pouco de sua história, ela fala dos preconceitos que sofre, de como enfrenta a sua questão psicológica, das razões que levaram o K-POP a ser conhecido em grande parte do mundo, da Ásia como um potencial mercado, das polêmicas que rodeiam a indústria do K-POP, da cultura coreana, dos fãs e do que falta ao Brasil para desenvolver o seu grande potencial ainda pouco aproveitado.

Suzy “Omma”Park concedeu entrevista ao Koreapost durante o Anime Friends do Rio de Janeiro. Foto: Mariana S. Briites

De onde surgiu este interesse pelo K-POP e pela Coreia?

Por incrível que pareça isso veio de uma situação triste. Foi após o falecimento da minha avó. Eu cheguei em casa e não tinha o que fazer, aí pensei: “vou assistir televisão”. Eu tinha uma amiga que insistia muito para eu assinar o Netflix. Ela queria que assistisse a série “Marco Polo” (2014). Assinei e quando comecei a assistir a série, não passei do primeiro episódio. Foi quando, zapeando, procurando filmes japoneses e chineses, que sempre gostei, encontrei a drama “Lie To Me” (2011), que tem até uma série dos Estados Unidos com o mesmo nome. Até aquele momento não tinha descoberto a Coreia. Adorei e virei a noite vendo o drama, estava de férias… E assim, comecei a ver outros dramas, até chegar no “To the Beautiful You” (2012), que tem no elenco o Choi Min Ho do grupo “SHINee”. Logo que o vi, pensei comigo mesma: garoto bonito! Então, fui procurar mais sobre ele e fiquei sabendo que fazia parte deste grupo.

Este foi o primeiro contato que tive com o K-POP, que até então desconhecia. Sempre gostei de música e de dançar. Música pop então… Sou da geração dos anos 1980. Meus ídolos eram Madonna e Michel Jackson. E quando vi a dança e a música, foi amor à primeira vista. Amor instantâneo tanto pelos dramas, quanto pelo K-POP. Aí passei a conhecer outras grupos como o “Beast” que agora se chama “Hightlight” e outros. Seis meses depois fui à um evento em São Paulo, durante o ano Novo Chinês no bairro Liberdade. Eu estava com uma camisa que dizia “I Love K-POP”. Resolvi ir para o Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, em que o pessoal sempre aproveita o espaço com vidraças das salas para ensaiar as coreografias. Ao chegar lá, uma garota veio conversar comigo e perguntou se eu gostava mesmo de K-POP.

Ela até se desculpou depois, porque disse ser um caso raro, que foge da faixa etária de quem curte, que fica normalmente entre os 10 aos 30 anos. Ela e outros perguntaram quais eram as minhas favoritas. Estavam meio desconfiados. Fui dizendo um por um até chegar no Jay Park que fez ela se impressionar mesmo. Assim, ela me apresentou ao Edson Woo, YouTuber, que agora se chama Edson Valdolski. Ele pediu para fazer uma entrevista comigo. Para mim que viva o dia a dia de uma dona de casa, ter uma entrevista com mais de 22 mil visualizações e mais 100 comentários foi algo impressionante.

Achei que só algumas pessoas mais próximas iriam assistir. E os comentários era os mais doces do tipo: “seja minha mãe’, “porque minha mãe não é assim”, “me adota”, “porque você não faz um canal?” Fiquei com isso na cabeça, mas também um pouco receosa de começar porque acredito que um canal do YouTube, independentemente de ser conhecido ou não, é sempre uma grande responsabilidade, ainda mais para uma pessoa na minha idade. E ainda na época, era corretora de seguros. Depois larguei e fui cuidar da minha família. Contudo, mesmo assim tarefas domésticas consomem muito o tempo de uma pessoa.

Então, esta entrevista teve grande impacto na sua vida?

Sim! Passado um ano, fui a um show do BTS e tive uma experiência bastante inusitada. Muitas pessoas vinham pedindo para tirar foto. Sabiam quem eu era e tal. Foi muito surpreendente para mim, porque eu nem canal ainda tinha. Tudo em razão da entrevista com o Edson que tinha muitos inscritos. Pensei bem e resolvi abrir o canal. Resolvi não criar personagens e ser apenas eu. Fiz o primeiro vídeo que teve uma boa recepção. As pessoas gostaram do meu jeito mais despojado para falar. E agora estou com mais ou menos dois anos de canal, tenho quase 300 vídeos. Não tenho muitos inscritos, estou em uma faixa de 6 mil a 7 mil, mas os meus seguidores são pessoas ótimas e que têm um certo carinho pelo canal. E eu não falo apenas de K-POP, falo da Coreia em geral, da Ásia, da síndrome do pânico que sofro por décadas.

Como a síndrome do pânico surgiu na sua vida?

Iniciou-se através de um ato político. Trinta anos atrás eu trabalhava na mesma empresa, mas no setor de consórcios. Teve uma greve e as pessoas que participaram dela pediram para que eu levasse as reivindicações para o diretor, porque eu era chefe de departamento e tinha acesso a ele. E eu fiz! O diretor falou que eu era um cargo de confiança e não poderia ter feito isso. Então, fui demitida. Isso afetou a minha vida tanto emocionalmente, quanto na prática. No mundo capitalista, você não existe para as pessoas e para o mundo se está desempregado. Eu podia ter tido outra atitude e procurado outro emprego? Poderia, mas a síndrome do pânico logo bateu e acabei indo para outro caminho. E isso me fez ter um certo ranço de política. Inclusive eu não voto há muito tempo. Não há quem eu confie na política.

Eu sempre gosto de contra-argumentar as coisas. Tudo nesta vida é política. A política no sentido mais amplo dela, que vai além de partidos políticos. Inclusive o seu canal é político também. Quando se defende algo, ou alguém, se está tomando uma posição, você se torna um uma pessoa atuante em favor daquilo. O seu canal além de propagar e de certa forma defender um grupo, também pode um dia se tornar uma empresa. Levando isso em conta, como você vislumbra o futuro do seu canal?

Quando eu fiz o canal, o fiz pensando que dinheiro não seria causa, seria consequência. E mesmo que ele se torne uma empresa, eu continuarei atuando da mesma forma que me posiciono agora. Defendo e propago aquilo que acredito. Eu tive dois divisores de água na minha vida. A síndrome do pânico com 25 anos e depois 25 anos mais tarde o K-POP. Eu pretendo não formular planos. Até o momento deixei a coisa fluir e tudo foi muito bom. Eu já pensei até em fechar o canal, em um período que estava mais desanimada. Não estava tendo muito retorno. Mas pensei que você abre um canal para dividir opiniões e conhecimento das coisas que você gosta, que acredita com o público que tem simpatia por aquilo também, ou respeita.

“Hoje eu penso se você e o seu trabalho, a sua tarefa, seja o que for, consegue “tocar”, ser importante de alguma forma, fazer diferença para alguém é isso que importa” Suzy “Omma” Park em entrevista ao Koreapost. Foto: Mariana S. Brites

E ocorreu que um inscrito ao saber desta possibilidade, entrou em contato e escreveu um texto enorme, onde pedia para eu não acabar com o canal, porque isso dava vida a ele. Então, foi em grande parte por esta pessoa que eu continuei com o trabalho. Hoje eu penso se você e o seu trabalho, a sua tarefa, seja o que for, consegue “tocar”, ser importante de alguma forma, fazer diferença para alguém é isso que importa. Eu como católica, creio que para tudo tem uma razão, inclusive a nossa vida. Eu estar aqui hoje não é só pela Suzy, é por todos que me colocaram aqui e estou retribuindo de certa forma. Assim, o trabalho vai continuar e o canal também. Talvez em consequência disso, convites para entrevistas, assim como eventos começaram aparecer.

Foto: Influencer Wiki Brasil.

Você já comentou em diversas ocasiões que o K-POP ajuda você a enfrentar esta condição. O que há no K-POP que faz você a romper a barreira do isolamento e enfrentar outras questões que a síndrome do pânico acaba trazendo?

É difícil dizer! Mas tentando colocar em palavras é uma força que vem de dentro e acaba meio que te dando energia e te impulsiona. Como, por exemplo, ao saber que eu vou ver o BTS, isso me dá um foco, um objetivo que me faz renegar todos os outros problemas que a mente poderia criar. Mesmo não tendo ninguém para ir comigo, eu vou. Assim, nesta questão a única coisa que é um empecilho é a falta de recurso. Se eu tivesse o meu dinheiro, eu iria em todos os shows de K-POP. Quando estou lá, volto a ter os meus 15 anos. Tenho até uma teoria sobre isso. Quando eu era adolescente a minha mãe não me deixava fazer nada. Não podia sair, não podia ir à casa dos outros fazer um trabalho da escola. Dormir na casa de uma amiga? Nem pensar! Então, eu acho que o K-POP meio que resgatou a adolescência que eu não tive. Resgatou a Suzy de 15 anos.

Mudei muito o meu estilo. Antes andava só de roupa social e era toda certinha. Hoje estas roupas estão guardadas em cima do armário. Eu mudei completamente! Posso dizer que hoje está é a Suzy real. No Japão, tem meninas que se vestem de Lolita, de bonequinha e tenho uma amiga que se veste assim na rua. Ela me disse uma coisa que eu nunca esqueci: que se vestia daquela forma porque assim se sentia mais forte. Eu sinto a mesma coisa. Quando estou assim, sei que há gente que me apoia, isso traz força e segurança.

Nós ainda vivemos em uma sociedade onde a mulher é sempre muito visada, julgada e contestada. E este universo K-POP, como você mencionou, é bastante jovem. E em razão da sua idade você chegou a ter algum problema? E até percebo que você utilizou a questão da idade para construir a identidade do canal, porque Omma, em coreano, significa mãe.

Usei a palavra Omma porque as pessoas sempre “pediam” para eu adotá-las. Eu acabei virando “uma espécie” de mãe sim para algumas delas. E para ser bem sincera, não tive problemas com jovens. Às vezes pode ter algo, mas sempre bem pontual. Contudo, uma coisa saliento, que apesar de eu sofrer de síndrome do pânico, esta condição não afetou a minha personalidade. Eu realmente tenho um envolvimento muito profundo com a K-POP, com os K-Dramas, ao ponto de eu não ligar para o que as pessoas pensam. Eu não me importo que me discriminem por eu gostar destas coisas e ser uma mulher mais velha.
Sempre quando estou dançando, quando estou falando no canal, eu estou em um universo só meu.

É uma espécie de blindagem que só entra quem me aceita do jeito que sou. Se não for o caso, eu aceito as críticas e não exijo que gostem de mim, só peço respeito. Assim, com os jovens desrespeito nunca ocorreu, mas com os mais velhos sim. Tive problemas com a minha família. Não com o meu marido, ele sempre apoiou. Não que ele goste, mas sempre concorda em me acompanhar em viagens e etc. Com a síndrome do pânico eu não viajo sozinha. Nas idas a São Paulo, vamos de carro, pois eu não ando de avião. Já consegui algumas vitórias com relação a isso. Fui em uma caravana sozinha, sem familiares, para São Paulo. Não tinha ninguém em que eu pudesse me agarrar e isso foi muito bom. O meu foco era mais importante que o meu medo. Nestas e outras que o K-POP tem ajudado.

Por esta razão, não compareço mais a festinhas de família. É sempre a mesma história: “vai pedir pra tocar K-POP?”, ou “Você só fala disso…”, ficam reclamando do meu cabelo colorido, das minhas tatuagens. São tios, tias, primos, primas… Veja eu tenho quase 300 vídeos no canal e não há um comentário da minha família. Então, minhas filhas e o meu marido são uma coisa, mas o restante da família eu me distanciei. Minha mãe é contra canal, mas por uma questão de preocupação maternal, de achar que estou me expondo muito, de ficar receosa que estou fora de casa e algo pode acontecer. Eu entendo o lado dela!

Mas, como você própria disse a sociedade não está preparada para algumas coisas. Você vê uma mulher cheia de tatuagens e com cabelo colorido, muitas pessoas vão pensar várias coisas ruins, menos que ela tem um casamento estável, que é responsável, que não trabalha por opção, que prefere ficar em casa cuidando das filhas, que é careta sim em algumas situações. Hoje em dia o ser humano é muito banalizado. O que me entristece com o restante da família é que todos viram como era a minha vida antes do K-POP. Eu não saía de casa, e agora que estou vivendo e muito melhor, eles deveriam mais é apoiar. Enfim, tomei a decisão de jamais ligar para a opinião, ou o julgamento de quem nos meus momentos mais difíceis nunca esteve comigo. Não vou parar de fazer o que me deixa feliz, porque tem gente que acha bobagem, ou acredita que doenças como a síndrome do pânico é coisa de gente fresca.

E suas filhas gostam de K-POP?

Não como eu. Na minha casa ocorreu o contrário. Ao invés das filhas levarem a mãe para conhecer o K-POP, foi a mãe que trouxe este conhecimento para as filhas. Agora elas estão acordando para o K-POP. Adoraram alguns shows em que tive a oportunidade de levar. Uma delas gosta mais de música pop-americana e, por isso, eu acompanho também. Minhas filhas têm um gosto bastante eclético e de boa qualidade, o que me ajuda muito.

Falando um pouco sobre a história da música em si. Você tem um amplo conhecimento musical e já pesquisou bastante sobre o assunto. Na sua opinião o que desencadeou o sucesso do K-POP?

O K-POP existe desde a década de 1990, mas antes o seu alcance ficava mais dentro da Coreia, ou talvez em alguns países da Ásia mais próximos. Agora o que fez o mundo conhecer um pouco da música pop coreana foi o cantor Psy, ou Park Jae Sang, com o sucesso “Gangnam Style”. Depois outros também começaram a ficar conhecidos em outras regiões como o “Big Bang”. Agora o que trouxe o K-POP para o conhecimento de um público bem mais amplo mesmo foi o BTS. Tem gente que vai discordar de mim, mas eu vejo que este grupo e o seu “exército” de fãs não apenas empurram a carreira deles, como também foram a porta de entrada para muitos apreciadores do K-POP. Muitos depois de terem o contato com o BTS passaram a procurar outros e gostar do pop produzido na Coreia.

Outras questões são importantes destacar: a sonoridade é muito boa, as coreografias muito bem-feitas, muito bem terminadas, os vídeos clipes são muito bem produzidos, com bons enredos. A Coreia sabe aproveitar cada oportunidade que aparece. Vendo o avanço do K-POP começaram a fazer reality shows onde o público pode acompanhar o início da formação dos grupos e depois o processo de desenvolvimento da carreira deles. O “Monsta-X” é um exemplo. Há duas formas de recrutamento, vamos dizer assim, na Coreia, quando se quer criar grupos. Os produtores vão em audições ou os talentos são encontrados através de olheiros. Os que aceitam participar de treinamentos e seguir este caminho podem ficar 10 anos vivendo em dormitórios das empresas, enquanto se aperfeiçoam para fazer a sua estreia. Há alguns que começam com 8 anos de idade. Estas coisas fascinam as pessoas.

Muitos dos ídolos têm histórias de muito sacrifício e de uma beleza enorme. Alguns chegam a ficar longe dos amigos e da família por meses, tudo em busca de um objetivo. E toda esta trajetória não é garantia de sucesso. É preciso fazer a estreia e cair no gosto do público. Tudo isso tem um apelo muito emocional para fãs como os brasileiros, que acabam construindo uma espécie de relação bastante emotiva com os seus ídolos. Eu arrisco a dar um palpite. No show do BTS, o jornalista Caco Barcellos entrevistou os fãs na fila e o resultado foi de chocar. Muitos que foram entrevistados (as) falaram que o BTS e o K-POP ajudaram na superação da depressão.

Na minha experiência, muita gente que acompanha o meu canal declarou a mesma coisa. Além do YouTube, eu posto no IGTV e lá falo sobre a síndrome do pânico. Muitas pessoas entram em contato e relatam a sua história, o processo para enfrentar a doença e como este problema começou na vida delas. Então, não é apenas a indústria em si e a qualidade do trabalho dos grupos. Há todo um envolvimento emocional do público por trás disso que acaba encontrando na música e em outros que gostam e curtem a sua tribo uma válvula de escape, que salva.

Vou aproveitar esta sua colocação para perguntar sobre outra questão polêmica. A indústria do K-POP, ao mesmo tempo que ela desempenha um trabalho aos olhos de muitos fascinante, tem históricos de problemas sérios como abusos dos mais variados tipos, o controle da vida dos ídolos pelas empresas que não podem nem namorar, sendo isso, provavelmente, a causa para muitos chegaram a tirar a própria vida. Este cenário afeta os fãs também, pois muitos acabam imersos em amores platônicos e não vivem as próprias vidas. Tudo por trás há uma indústria que lucra muito. O que pensa sobre isso?

Creio que seja um problema que ocorre por razões de mercado, de cultura e dos problemas sociais em geral particulares desta época. De forma geral, a cultura coreana tem ainda uma característica de ser mais rígida para muitas coisas. É difícil falar sobre estas questões, porque ao comentar dos problemas de um outro país e de uma outra cultura, você abre espaço para eles falarem dos nossos. Contudo, como vivemos um pouco este mundo do K-POP é preciso discutir e saber que tudo tem um limite. Estes dias estávamos falando sobre esta questão de ídolos não poderem namorar, sobre fãs que acabam imersas em seus amores platônicos, não vivendo a própria vida e etc.

Existe até um drama que aborda esta questão. Na Coreia, os fãs veem estes artistas muito como divindades e que ao namorarem uma pessoa normal, que não seja uma celebridade, eles meio que perdem o encanto. Desta forma, os ídolos só podem namorar entre eles. Quando acontece e se descobre que eles tiveram relacionamentos fora deste universo, os próprios fãs não gostam e chegam em alguns casos até pedir a saída destes ídolos dos grupos. Com isso, as empresas vêm e proíbem os namoros. Nesta condição, eu me pergunto: quem é o vilão afinal? De que adianta a empresa liberar um namoro, se as fãs ao saberem, não apoiam, não querem mais saber, não compram as músicas. Quem tem o real poder nas mãos é o público. Não adianta uma empresa fazer todo um investimento se ninguém compra, ninguém escuta.

Os ídolos também não podem expressar suas opiniões livremente. O Jay Park foi um que teve de sair do “2PM” em razão da exigência dos fãs por ter criticado a Coreia apenas, por exemplo. Agora voltando a questão sobre vida pessoal, tudo é mais ok se dois ídolos namoram, aí todos gostam, o que isso significa? Que uma divindade só pode namorar outra divindade? Isso não entra na minha cabeça. Desta forma, você tem namoros que são interrompidos como foi o caso do Jong Hyun que acabou tirando a própria vida. Eu não entendo estas coisas, estas contradições. Quando a pessoa está amando ela está em um momento especial, em que é mais produtiva. Quanta coisa Jong Hyun poderia estar fazendo agora se junto com o trabalho pudesse ter tido uma vida privada, digamos, normal.

E na sua opinião por que os fãs têm esta reação?

É algo meio global. E não saberia dizer ao certo a causa disso. Mas, o que vejo é que esta geração não consegue muito ver um futuro florido, e sim algo bastante nebuloso e tenebroso. Os números estão aí para comprovar. Índices de suicídio aumentam cada vez mais entre os jovens. Perdi um amigo recentemente, uma pessoa de 18 anos, que se enforcou e a namorada ao saber disso fez o mesmo. Então são questões psicológicas e de valores que a sociedade mundial ainda não encontrou respostas e parece não querer dar a atenção devida. As inseguranças emocionais precisam ser melhor discutidas, para buscar a raiz dos problemas. O cenário ao redor também não é bom: há desemprego, há violência, há saúde e educação precárias. Tudo isso também contribui para um cenário em que a pessoas não criem uma estabilidade e uma segurança psicológica, emocional.

Contudo, eu acredito muito no ser humano e acho que ele é a causa e a solução para os problemas. Por exemplo, com o bullying não adianta apenas tratar quem sofre o ataque. É preciso cuidar de quem faz o bullying, saber qual a razão de estar incitando aquela violência toda. Outra questão importante, a meu ver, é a divisão muito radical entre os mais diversos grupos. Hoje todo mundo tem a sua tribo: as mulheres, os negros, os lgbts, os que gostam de tal coisa, os que gostam de outra e, às vezes, tudo mais parece uma competição, do que uma tentativa de unir a todos e tentar entender os problemas de cada um, conjuntamente.

Em outras palavras, o egoísmo e o individualismo das pessoas e dos grupos, das “tribos”, estão um pouco fora da normalidade. Isso cria um ambiente de: ou você está comigo, ou está contra mim. Divide mais as pessoas e não acaba com os preconceitos como deveria. Por fim, todos os posicionamentos políticos, culturais, sociais são bem-vindos, mas precisam ter um embasamento, uma pesquisa. Defender algo, ou alguém deve ser feito com base em conhecimento, sem ingenuidade e sem radicalismos.

Vamos falar um pouco agora sobre o cenário internacional do ponto de vista da cultura. Hoje vemos uma presença muito maior da Ásia. O Japão já teve o seu momento, a China no futuro talvez se torne mais proeminente com seus produtos culturais e hoje a Coreia destaca-se. Como você avalia isso?

O Japão teve o seu momento com Animes, J-POP, Doramas, tecnologia e tantas outras coisas, colocando a Ásia em evidência para o mundo. A China não tenho dúvida será daqui uns anos a primeira potência mundial. Ela já é nosso principal parceiro econômico. E não será apenas pelo tamanho dela, mas porque ela é inteligente. Tudo lá é planejado estrategicamente e pensado para daqui há muito tempo. Mas, culturalmente, neste momento histórico, foi o Japão que abriu as portas. Tanto que muita gente que hoje curte K-POP, gostava antes de J-POP, de Anime, de Doramas, e acabaram migrando, ou ficando com um pé lá e outro aqui.

A Coreia não é boba, e seguiu o mesmo caminho para depois desenvolver um estilo próprio, uma indústria própria, fazendo com que fosse descoberta. Luciano Huck já fez alguns programas lá. Os coreanos trazem muitos brasileiros para estudar no país. Creio que temos muito a lucrar com isso. Mesmo com aqueles problemas culturais, a Coreia tem muito que ensinar com relação a desenvolvimento, por exemplo. Há pouco tempo ela era subdesenvolvida e recém saíra de uma guerra. Em pouco tempo, ela se tornou uma das principais economias no mundo graças à cultura de cuidar da própria casa. Isso que falta ao Brasil. Esta coisa de pensar coletivamente, envolve mais as pessoas. E o seu envolvimento chega a ser tanto, que você leva a Coreia consigo. Eu tenho várias tatuagens com símbolos do país no corpo, não tenho nenhuma do Brasil. Só do meu time de futebol. Eu gosto do meu país? Gosto! Mas, não sinto vontade alguma de enaltecê-lo em nada e já faz um tempo.

É interessante que os asiáticos, ainda que briguem muito entre eles, acabam abrindo portas de um país para outro.

Neste mundo conectado, na realidade, as possibilidades são várias. Vou contar uma história. Para você ter uma ideia eu tenho tatuado no braço a música “Lac Troi” de um cantor vietnamita chamado Son Tung. O que você sabe sobre o Vietnã em geral? Que ganhou a guerra dos Estados Unidos e ponto. Se for pesquisar vai saber que é um dos maiores produtores de arroz no mundo e que também vem desenvolvendo uma indústria cultural própria. Eu adorei a música e deixei um comentário em vídeo musical dele. Para você ter uma ideia, só este meu comentário teve mais de 7 mil visualizações e mais de 200 comentários.

E todos tinham este teor: “eu amo o Brasil”, “o Brasil vai ganhar a Copa América”. Para eles é inusitado que uma brasileira, alguém do ocidente goste e aprecie o cantor daquele país. Assim, comecei a ter vários seguidores vietnamitas no Instagram e que acompanham o canal. Muitos fãs começaram a enviar diversas coisas sobre a carreira e o trabalho dele. Eu passei a ser muito conhecida na fanbase de Son Tung no próprio Vietnã. Veja a atuação coletiva e a exaltação da música nacional para uma estrangeira. Isso não acontece no Brasil, não se aproveita estas oportunidades para divulgar a cultura.

Aproveitando isso que você colocou sobre os vietnamitas. O brasileiro ainda tem um complexo grande de vira-lata. E se submete a muitas coisas, achando que outras culturas são superiores. O que se pode aprender com as diferentes nações asiáticas, que tem uma certa auto-apreciação, para que um dia o Brasil possa, na visão do brasileiro, ser tão interessante como outros países são.

Eu acho que o brasileiro primeiramente não deve copiar ninguém. Aliás, precisa parar de fazer isso. Nós podemos cuidar da nossa casa, com a nossa essência, da nossa forma. E é preciso parar com algumas ideias erradas e estereotipadas. Por exemplo, limpeza. Não é algo de japonês, de asiático. Limpeza é algo do ser humano, você aprender a ser limpo. Outra questão, é preciso parar enaltecer coisas que obviamente deveriam ser consideradas normais. Por exemplo, prêmio para quem for solidário, bondoso. Não pode! Se alguém passa mal na rua e ajudo, isso não é mais do que a minha obrigação.

É um ato humano que qualquer pessoa civilizada deveria ter. É necessário estimular desde o início as pessoas a serem boas, a serem coletivas, menos individualistas. Parar com aquela noção se o outro não faz, eu também não faço. Ou se o meu está garantido, e o da minha família, então, pronto, é isso que interessa. Você está em uma praça de alimentação e termina o seu lanche e não recolhe o lixo? Alguns dizem que se recolherem a moça da limpeza vai perder o emprego. Não pode! No fundo, falta compromisso e coletividade, sem segundas intenções. Do contrário, nada dá certo.

E o que o Brasil pode contribuir para os asiáticos tanto economicamente, quanto culturalmente?

O Brasil tem tudo para produzir e vender desde produtos agrícolas a industriais. O potencial é enorme, mas precisa organização e coletividade. Culturalmente creio que há diversas questões na cultura brasileira que são positivas como o carinho, a flexibilidade para muitas coisas, uma empatia maior para algumas coisas. Estas características em outras culturas mais rígidas podem ser de grande contribuição.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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