James Freeman, fundador da Blue Bottle Coffe, segura uma xícara de café na primeira filial da Blue Bottle Coffe em Seul, localizada em Seongsu-dong, ao leste da cidade. Foto: Korea Joongang Daily

Foi a maior sensação da cidade. No final de semana de sua inauguração, no inicio do mês passado, várias camadas de linhas serpentinosas impediam a entrada da luz solar nas enormes janelas do primeiro Centro de Torrefação e Café Blue Bottle Coffee da Coreia, em Seongsu-dong, ao leste de Seul.

As redes sociais explodiram de depoimentos de pessoas que experienciaram a primeira filial da companhia americana na capital coreana. Amantes do café compartilharam sobre a espera, o sabor das bebidas, a diferença desse novo estabelecimento em relação aos do exterior e se continuariam frequentando o local. Não é exagero afirmar que Seul estava contagiada pela “febre Blue Bottle”, visto que o novo local foi o assunto mais falado em uma cidade alucinada por café, durante todo o final de semana.

Foto: Pulse

Fundada em 2002, na cidade de Oakland, na Califórnia, a Blue Bottle Coffee se interessa há muito tempo pelo mercado coreano. A empresa acredita que cerca de um terço dos seguidores de sua conta oficial no Instagram são da Coreia. Cerca de metade dos visitantes de, no mínimo, dois de seus Cafés localizados no Japão também são da Coreia. Esse entusiasmo levou a empresa, que é majoritariamente comandada pela Nestlé, a agir e fazer da Coreia o seu segundo mercado internacional. Antes mesmo do primeiro Café abrir suas portas na cidade, houve notícias de que uma segunda filial já estava em andamento em Samcheong-dong, no centro de Seul, e será inaugurada em alguns meses.

Nós percebemos que deveríamos prestar atenção ao que estava sendo dito. Talvez nós devêssemos trazer a Blue Bottle para a Coreia“, afirmou James Freeman, um dos fundadores da empresa, que iniciou no ramo vendendo café em uma feira livre nos Estados Unidos. Na inauguração do Café, ele ficou na porta para dar as boas vindas aos visitantes que aguardaram horas em uma fila quilométrica. O estabelecimento de dois andares possui um Centro de Torrefação no primeiro andar e um Café no subsolo.

Causar essa euforia é fácil, mas o trabalho é difícil. É óbvio que não teremos filas e agitação o tempo todo, mas nós queremos fazer café para a vizinhança e oferecer a eles uma experiência que eles queiram compartilhar com seus amigos.”

Para satisfazer o gosto de consumidores que já conhecem a Blue Bottle Coffee do Japão ou dos Estados Unidos, a empresa planeja lançar uma nova bebida que só estará disponível no mercado coreano. James explica que será semelhante a um Americano pequeno, mas ainda não tem um nome oficial e não está disponível no cardápio até momento.

À direita, a fachada da Blue Bottle Coffee em Seongsu-dong. À esquerda, baristas preparam o café no balcão. Foto: Korea Joongang Daily

O Café também preparou aperitivos exclusivos na Coreia. Em parceria com a Maison M’O, uma popular pátisserie localizada no distrito de Seocho que é sucesso de vendas, a companhia americana apresenta um total de 10 guloseimas salgadas e doces, das quais nove foram especialmente criadas para a Blue Bottle. Além disso, esse é o primeiro café da Blue Bottle sem uma cozinha. Sendo assim, os alimentos oferecidos no cardápio são todos provenientes de parcerias com fornecedores locais.

Baristas recomendaram um latte com um pedaço de bolo de baunilha para quem desejar um sabor adocicado, pois não é servida nenhuma bebida de café doce no estabelecimento. Um latte custa 6,100 won (aproximadamente R$ 20,00) enquanto que um americano custa 5,000 won (em torno de R$ 16,00). Alguns acessórios feitos exclusivamente para a Coreia estão disponíveis, incluindo um copo transparente com o logotipo e uma bolsa de tecido.

No entanto, talvez não seja o local mais adequado para aqueles que buscam um local para estudar ou trabalhar por horas com seus laptops e tablets. Não há tomadas elétricas e a loja não fornece Wi-Fi para clientes – uma política vigente nas instalações da Blue Bottle em todo o mundo.

“Talvez isso nos faça ser expulsos da Coreia”, brinca James. Após anos de debate, ele chegou a conclusão que fornecer uma conexão Wi-Fi distrai as pessoas da experiência que o Café oferece. Ele compreende que grande parte dos clientes buscam pelo “ruído branco” de um Café, mas não é isso que ele deseja oferecer para as pessoas que pisam em sua empresa.

“Sou a favor da interação humana. Conversem com os baristas, conversem entre si. Por que não ter 20 ou 30 minutos incríveis do que entediar a si mesmo por seis horas?”

James é um ex-clarinetista e afirma que sua paixão pelo café é tão forte quanto há duas décadas. Veja abaixo a entrevista que ele deu para o jornal Korea JoongAng Daily para explicar o que torna a Blue Bottle especial para tantas pessoas na Coreia e ao redor do mundo.

Por que você escolheu Seul?
Nós pensamos “Vamos testar a Ásia” Que melhor lugar para fazer isso do que Seul? Se nós não trabalharmos bem, Seul vai nos detonar, você não acha? Se podemos ir para um local que nos trará desafios, por que abrir onde será fácil?

Você pensa que o que você procura em um Café é diferente do que a maioria dos coreanos esperam?
É arrogante pensar que podemos mudar a forma como a Coreia aprecia o café, mas não é arrogante pensar que podemos mudar 500 pessoas. Seul é uma cidade grande. Se 500 pessoas em Seul quiserem o que nós fazemos, já é um excelente resultado. Seja qual for esse número, a questão é não precisamos convencer todo mundo. Acredito que existem pessoas em Seul que talvez estejam interessadas no que fazemos. [Tudo] vai depender do quão bem executado for nosso trabalho, do sabor do café, da sensação que as pessoas tem ao entrar no estabelecimento, do tratamento que elas recebem da nossa equipe. Se nós conseguirmos fazer essas coisas direito, teremos clientes suficientes.

Como será a segunda filial?
Eu não quero estragar a surpresa, mas a instalação é bem diferente dessa. Queremos ser incluídos no bairro e essa sempre será a nossa meta.

Onde você vê a empresa no futuro?
A Blue Bottle é diferente em cada fase. É cada vez menos sobre minha excentricidade ou entusiasmo e mais sobre aquilo que faz sentido. O futuro da Blue Bottle será principalmente na Ásia, onde parece que as pessoas gostam mais de nós. Tóquio foi uma experiência tão boa para nós que faz mais sentido aproveitar e prosseguir a partir desse sucesso.

Seu passado como músico teve algum impacto na escolha das músicas tocadas nos Cafés?
Grande parte da música é voltada para a nossa equipe. Ela terá mais ânimo se estiver feliz com a música e essa energia afeta os clientes. Eu não posso escolher todas as músicas porque os baristas, com certeza, iriam me odiar (risos). Sendo assim, deixo a playlist a critério deles e eu gosto das escolhas que são feitas. Tudo depende do momento do dia, do ambiente e quem estiver nele. Talvez um pouco mais de ritmo pela manhã e vai se ajustando com o passar do tempo. Afinal, você não mantêm a mesma emoção durante todo o dia.

Quanto de tecnologia é aplicada para o funcionamento dos Cafés da Blue Bottle?
Nós usamos bastante se levarmos em conta o fornecimento do café, o tempo para tostá-lo, a quantidade exata e tudo o mais que foi necessário para o bom funcionamento do Café. Tudo isso é muito complicado e é de extrema importância ter profissionais de tecnologia resolvendo esses problemas, porque isso pode realmente fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de um Café, mesmo que esteja lotado de clientes. Mas, não é o que eu faça ou tenha interesse. Existem outras pessoas que estudaram para isso.

Como fundador da empresa, qual sua importância nos dias de hoje?
Eu espero que minha importância não seja apenas simbólica. Acredito que tenho uma certa influência e o que eu penso tem um peso para um parte da companhia. Eu ainda sou capaz de plantar uma semente e ela pode crescer. Minha atuação é mais editorial. Eu prefiro falar para as pessoas sobre o que não deve ser feito do que o contrário.

Quais o seus interesses atuais?
Eu tenho um pequeno ateliê onde eu faço café. Eu nunca tive hobbies e não é como se eu viajasse ao redor do mundo. Nos últimos quatro meses, eu fiz apenas um café. Apenas um que foi, de certa forma, surpreendente. O melhor até o momento. Para a Blue Bottle, o café que faço é como o som de uma orquestra, em harmonia com seus graves e agudos. Eu tenho trabalhado em um café de um tom só. Um café intenso de uma nota grave e galopante. Mas, eu não consegui fazer de novo. Eu testei de todas as formas e não estou certo do motivo porque não consegui.

Por que passar por esse processo?
Eu não parei com o café. Praticamente, não existe nada que eu puossa fazer que tenha maior valor para mim.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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