Cena do filme coreano "High Society" da Netflix. Imagem: Netflix

A transformação da economia sul coreana em um dos maiores exportadores do mundo deve muito aos grandes conglomerados familiares em expansão. Conhecidos por chaebols (A palavra “chaebol”, formada pelas palavras para “riqueza” e “clã”, foi cunhada em 1984), eles são os pilares do milagre econômico do país.

Entretanto, sua influência superdimensionada e sua relação de comodidade com o governo trouxe diversos escândalos envolvendo desvio de dinheiro e abuso de influência, custando o emprego tanto da Presidente do país quando do Presidente da Samsung. Os olhares se voltaram para os conglomerados e talvez seja hora dos chaebols mudarem.

Empreendedorismo sufocado e reação pública

No início de 2012, houve uma grande reação pública contra as chiques confeitarias que pertenciam às filhas dos magnatas sul coreanos, as quais foram acusadas de tirarem do mercado pequenos empreendedores coreanos tradicionais do ramo de padarias. Os protestos foram tão grandes que até mesmo políticos se envolveram nos movimentos.

Na época, o primeiro ministro se manisfestou, dizendo que “Os filhos e netos dos grandes magnatas coreanos devem achar que abrir uma padaria é um hobby divertido, mas isso é uma ameaça para aqueles pequenos donos de padarias que vivem disso”.

Isso pode parecer uma história banal, mas representa muito bem o crescente ceticismo — ou até mesmo ódio — pelas grandes empresas de famílias ricas sul coreanas. As famílias que controlam as mega corporações, como Samsung, Hyundai, LG, Lotte, Grupo SK, Hanjin, Hanwha e Doosan, dominam a economia do país. Os 10 maiores chaebols somam mais da metade do valor das quase 2 mil companhias listadas nas bolsas de valores do país, e as 30 maiores representavam mais de quatro quintos da exportação em 2010.

Eles são tanto amados quando odiados. “Existem duas percepções”, diz o professor Kim Woo-chan, da Escola de Negócios da Korea University. “Os coreanos têm muito orgulho de seus chaebols, especialmente quando vamos aos aeroportos e vemos as logos das companhias, mas não nos orgulhamos das famílias que as controlam”. Um jovem coreano — que preferiu se manter anônimo — disse sem pensar duas vezes que “todos odeiam os chaebols”.

Existem duas maneiras principais dos chaebols prejudicarem a economia sul coreana. Primeiro, fazendo mais difícil a vida dos pequenos e médios empreendedores, os quais empregam nove décimos dos sul coreanos. Houve protestos em 2011 quando a Lotte começou a vender baldes de nuggets de frango assado a preços reduzidos, preços que os pequenos vendedores não poderiam cobrar por seus produtos.

A Lotte cedeu às pressões e parou com o negócio uma semana depois. Isso foi parte do que chamam de “guerra do tofu”, porque a produção de tofu é uma das indústrias que os chaebols são impedidos por lei de se envolverem. Isso parece apenas uma regulação maluca, mas em 2011 eles também foram banidos de produzir garrafas, óculos de sol, brinquedos, lâmpadas e sopa.

Naquele momento, o corpo comercial dos chaebols chamou isso de “superproteção”, o que impediria os PMEs (pequenos e médios empresários) de serem fortes o suficiente para se sustentarem sozinhos, embora seja difícil imaginar que os chaebols realmente temem os fabricantes de lâmpadas de Daegu. Mas é muito fácil ver que os fabricantes de lâmpadas têm muito a temer dos chaebols.

Além disso, os chaebols são acusados de sufocarem o empreendedorismo. “É muito difícil encontrar negócios grandes e que costumam ser de pequenos e médios empreendedores”, diz o professor Kim. É quase impossível para os pequenos empresários coreanos assumirem uma subsidiária dos chaebols — e tudo é uma subsidiária deles.

Chaebols e a Política

Quando a Coreia do Sul se tornou uma democracia em 1987, um líder chaebol tornou-se presidente e um relacionamento amigável foi mantido. No entanto, a fragilidade do sistema foi exposta na crise financeira asiática de 1997, quando a demanda de exportação entrou em colapso e 11 dos 30 maiores chaebols caíram. Em 1999, o grupo Daewoo deixou US$ 80 bilhões (€61 bilhões) de dívida não paga, na época o maior colapso corporativo da história. Apesar de ser óbvio que é perigoso basear sua economia em um punhado de megacorporações, os chaebols se mostraram intocáveis e o país passou a ser frequentemente chamado de República Chaebol.

Chaebols: Os Reis Dos Conglomerados E Das Polêmicas
Alguns líderes de conglomerados, condenados nos últimos anos. Imagem: wall street journal

Em agosto de 2012, Kim Seung-youn, de 60 anos, chefe do conglomerado sul-coreano Hanwha, foi preso por quatro anos após ser considerado culpado de fraude. Em 2007, Kim, que assumiu o negócio de seu pai em 1981, foi preso por bater em um homem com uma barra de aço em uma briga de bar, antes de ser perdoado.

Ele também foi condenado por financiar ilegalmente uma campanha política e por levar dinheiro ilegalmente para o exterior para comprar propriedades. Todas as vezes, ele foi perdoado e voltou a cargos sênior na Hanwha. Em 2012, porém, as coisas foram diferentes e a sentença foi bem real. Não houve perdão.

E 2017 deveria ser um ano divisor de águas para chaebols, depois que o principal executivo da Samsung foi preso como parte do escândalo que derrubou Park Geun-hye, presidente da Coreia do Sul. Jay Y. Lee, o chefe de fato do Grupo Samsung, foi sentenciado a cinco anos de prisão depois que um tribunal o condenou por suborno, ao tentar obter maior controle do império Samsung fundado por sua família. Mas Lee apelou da condenação e no início de 2018 a Suprema Corte de Seul o libertou após reduzir e suspender a sentença, gerando a fúria pública.

O descontentamento popular com os chaebols está se formando. Em uma audiência em 2016, nove líderes chaebols enfrentaram uma enxurrada de perguntas dos legisladores, enquanto centenas de milhares de manifestantes pediram pela destituição da presidente, expressando sua raiva contra os conglomerados. Park foi considerada culpada em 2018 de crimes que variam de suborno a coerção, abuso de poder e fuga de segredos de Estado e foi condenada a 24 anos de prisão, onde ainda permanece.

Por incrível que pareça, é uma prática padrão para os chefes de chaebols receberem sentenças brandas seguidas de perdões presidenciais quando são considerados culpados de crimes. Desde 1990, os chefes de sete dos dez maiores chaebols foram condenados por suborno, evasão fiscal ou fraude. Todos receberam indultos (ato de clemência) presidenciais e todos voltaram aos cargos de gestão. “Quando os tribunais estão decidindo sobre as sentenças, eles realmente verificam se eles contribuíram para a economia coreana”, diz o professor Kim. “O presidente leva em consideração que tipo de trabalho eles fazem e quantas oportunidades de emprego eles geram, por exemplo.”

Lee, da Samsung, foi considerado culpado de subornar funcionários e multado em US$ 100 milhões em 2008. Ele foi condenado à prisão, mas foi perdoado porque era membro do Comitê Olímpico Internacional e foi fundamental para o sucesso da candidatura de Seul aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018. Isso pode parecer chocante na maioria dos países. Mas não no mundo dos chaebols.

Portanto, um grande problema com os chaebols é que eles estão há muito tempo acima da lei. Obviamente, uma maneira de controlar seus excessos é começar a processá-los de maneira adequada, e o veredicto de Hanwha simbolizou essa determinação em responsabilizá-los por seus atos. Em segundo lugar, uma regulamentação é necessária para controlar os chaebols, já que essas grandes famílias fazem de tudo para manter o controle dos negócios de seus grupos.

E embora o chaebols tenham ajudado a tornar a Coreia do Sul uma história de sucesso econômico, a população sul-coreana também vem questionando cada vez mais a consolidação de riqueza entre um punhado de famílias e o efeito sufocante que tiveram sobre as pequenas empresas e startups.

As pessoas não estão mais aceitando fechar os olhos às relações ilegais e impróprias entre o governo e as empresas como no passado, quando os chaebols eram vistos impulsionando o crescimento e criando empregos, de acordo com Kim Sang-jo, presidente do Fair Trade Comission e ex-professor de economia da Universidade Hansung.


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