“As crianças de Kim Il-sung”, um documentário que lança luz sobre o destino de órfãos norte-coreanos enviados para a Europa Oriental após a Guerra da Coreia, chegou aos cinemas.

O filme de Kim Deog-young investiga o destino de cerca de 5.000 órfãos norte-coreanos enviados para cinco países da Europa Oriental entre 1952 e 1960. Kim analisou arquivos na Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia e República Tcheca, além de escolas e dormitórios onde as crianças estudaram e moraram.

O documentário teve sua estreia no International Peace Film Festival de Pyeongchang, na Coreia, em 20 de junho, antes de estrear nos cinemas no 70º aniversário do início da Guerra da Coreia, no dia 25 de junho.

Os filmes anteriores de Kim se concentraram na Guerra do Iraque e na situação de desertores norte-coreanos. Ele ficou sabendo dos órfãos norte-coreanos no início de 2004, quando o cineasta Park Chan-wook, um amigo também graduado na Universidade de Sogang, telefonou para ele enquanto procurava locações de filmes na Europa Oriental.

Kim Deog-young, o cineasta por trás de “As crianças de Kim Il-sung”| Fonte: Jedennews

Park contou a Kim sobre a situação de uma romena de 87 anos chamada Georgeta Mircioiu que estava separada do marido norte-coreano há mais de 40 anos e ainda o esperava. Kim voou direto para a Romênia e a entrevistou.

Cerca de 2.500 órfãos norte-coreanos foram enviados à Romênia a partir de 1952 para serem educados. Os países do bloco oriental aceitaram os órfãos visando ganhar reconhecimento pela “solidariedade socialista” durante a Guerra Fria.

Mircioiu, uma professora de artes, se apaixonou por Cho Jung-ho, um norte-coreano designado para supervisionar os órfãos. Os dois se casaram em 1957. Cho foi chamado de volta ao Norte em 1962 e Mircioiu foi para Pyongyang com ele.

No entanto, Cho foi levado para trabalhar em uma mina de carvão assim que o casal pôs os pés em solo norte-coreano. Mircioiu deu à luz a sua filha em Pyongyang e retornou à Romênia. Ela ainda não sabe o que aconteceu com o seu marido.

Dois órfãos da Guerra da Coreia com um menino húngaro em uma foto de 1953 | Fonte: The Korea Times

Acredito firmemente que meu marido está vivo e voltará, e tenho trabalhado em um dicionário romeno-coreano nos últimos 30 anos para lembrar o idioma coreano“, disse ela a Kim.

A Coreia do Norte é um lugar recluso e anormal e é praticamente impossível ir lá e mandar notícias“, disse Kim. “Isso fez com que as pessoas confiassem nas informações distorcidas fornecidas por algumas fontes norte-coreanas, então não pude resistir à oportunidade de me aprofundar em todos os materiais reveladores que subitamente estavam disponíveis na Europa Oriental“.

As imagens enviadas por alguns governos da Europa Oriental foram tiradas há cerca de 60 anos, mas ainda parecem novas. Os órfãos podem ser vistos levantando-se prontamente às 6:30 da manhã para saudar uma bandeira da Coreia do Norte e uma foto do fundador da nação, Kim Il-sung.

Na Escola Primária Número 5 de Otwock, na Polônia, onde os órfãos estudaram, ainda existem fotos desbotadas dos norte-coreanos, bem como boletins mostrando que obtiveram excelentes notas em pintura, artesanato e comportamento. Na cidade, os pinheiros plantados pelos norte-coreanos cresceram e os restos de um obelisco que montaram para comemorar a amizade das nações ainda podem ser encontrados.

Kim Il Sung visitou alguns dos órfãos, incluindo os da escola de Dobek, durante uma viagem de 1956 à Europa Oriental. Foi um ano depois, por ordem dele mesmo, que os norte-coreanos começaram a voltar para casa. Em 1959, todos se foram.

O filme mostra imagens de 1959 de jovens norte-coreanos alcançando através das janelas dos trens um aperto de mão de despedida com amigos búlgaros. Maria Yamalieva, da Bulgária, chorosa, diz que ela e sua amiga norte-coreana Kim Jin Wu choraram juntas enquanto se abraçavam antes de se despedir.

Nunca houve uma explicação pública sobre o motivo pelo qual os órfãos foram mandados para casa, mas o filme e os especialistas especulam que Kim poderia ter se preocupado com os jovens norte-coreanos serem muito influenciados por uma cultura estrangeira no momento em que houve alguns protestos anti-soviéticos na Europa Oriental que apelavam à reformas políticas.

Uma vez em casa, alguns dos órfãos enviaram cartas aos professores e colegas de classe. Barbara Michalowska, cuja mãe ensinou em Otwock, disse à Associated Press que um aluno enviou à mãe uma pintura que ele havia feito de uma paisagem coreana. Ela disse que outros escreveram cartas dizendo que desejavam retornar à Polônia.

Depois de alguns anos, as cartas simplesmente pararam, disse Kim Deog-Young, o diretor.

O que aconteceu com a maioria dos órfãos não é conhecido, mas há pistas sobre alguns.

Seo Jae-pyoung, que fugiu da Coréia do Norte em 2000, disse à AP que seu professor de russo nos anos 80 havia sido enviado para a Romênia como órfão e relembrou o banquete com pão, leite e queijo enquanto estava lá.

Haesung Lee, chefe de estudos coreanos da Universidade de Wroclaw, na Polônia, disse que três ex-diplomatas norte-coreanos enviados para a Polônia e um quarto que ensinou polonês em uma universidade de Pyongyang eram órfãos enviados para a Polônia. Seus amigos europeus agora idosos desejam aos norte-coreanos o melhor, qualquer que seja o caso.

Gostaria que meus amigos pudessem viver tão inocentemente quanto quando éramos crianças“, diz Lilka Anatasova, uma búlgara de 77 anos, no filme, mencionando alguns norte-coreanos pelo nome. “Eu nunca os esquecerei“.

Pude confirmar que o culto à personalidade de Kim Il-sung já estava em pleno andamento na Europa Oriental no início dos anos 50. Essas crianças foram rejeitadas pela Coreia do Norte e enviadas para a Europa Oriental, onde suas vidas foram viradas de cabeça para baixo. Eu acredito que é nosso dever esclarecer o destino trágico dessas crianças que foram esquecidas pela história“, finalizou Kim Deog-young.


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