Não foi o desejo pelo poder, ou ideais políticos ambiciosos que levaram Moon Jae-in a entrar para a esfera política, aos 59 anos. Foi o voto solene de suceder o legado político de um velho amigo, o ex-presidente Roh Moo-hyun, que cometeu suicídio em 2009.

A vitória de Moon nas eleições presidenciais desta terça-feira, marca o final de uma era de governos conservadores que perdurou por uma década na Coreia do Sul. No entanto, em nível pessoal, marca a ascensão de um líder político ‘retardatário’, que, falando de sua Nêmesis: a ex-presidente Park Geun-hye e seus aliados políticos que governaram o país durante a década passada, chamou-os de ‘males acumulados’. Ele venceu as eleições com a promessa de fazer uma reforma geral. Park derrotou Moon em sua primeira candidatura para a presidência em 2012.

Da ‘elite faminta’ ao ‘ativismo progressista’

Moon nasceu em uma família de refugiados no dia 24 de Janeiro de 1953, último ano da Guerra da Coreia, na ilha de Geoje, sul da Província de Gyeongsang.

Dono de uma mente afiada, Moon foi aceito em uma escola de elite, a Kyungnam High School. Depois, frequentou o curso de direito da Universidade Kung Hee e foi aprovado no exame da Ordem Estadual dos Advogados em 1980.

Moon, o primeiro à esquerda, nos tempo de faculdade. Foto: Korea Herald
Moon, o primeiro à esquerda, nos tempos de faculdade. Foto: Korea Herald

Ele também se classificou, em segundo lugar para o Instituto Judicial de Pesquisa e Treinamento. Mas, falhou na admissão não por falhas em sua vida acadêmica, mas devido ao fato de já ter sido preso em sua época de líder estudantil.

O motivo que levou o brilhante estudante a transformar-se em líder estudantil, lutar contra o governo da época e a tornar-se advogado especializado na área dos direitos humanos foi justamente o pai da ex-presidente Park, o também ex-presidente Park Chung-Hee, assassinado em 1979.

Em 1972, primeiro ano de Moon na faculdade, o ex-presidente Park, conhecido por governar o país com ‘mão de ferro’ forçou a aprovação de uma revisão da constituição que lhe daria mais poder, com um mandato de tempo indefinido. Esta ação levou milhões as ruas, para protestar contra seu governo.

Não é nenhuma surpresa que Moon e a ex-presidente Park depois viriam a tornar-se adversários na arena política. Antes, o antigo ditador, e mais tarde sua filha, que se beneficiou do controverso legado deixado por seu pai.

Outro presidente ‘mão de ferro’, a quem Moon se opôs foi Chun Doo-hwan, que ‘resumiu a nação à um copo’ em 1980, pouco tempo depois do assassinato de seu predecessor, que governou a Coreia do Sul até 1988.

Quando estava cumprindo seu período de serviço militar obrigatório, Moon foi membro da brigada da força especial. Ele recebeu uma comenda, de sua unidade no ano de 1975. Na época, o comantante geral era Chun.

Roh Moo-hyun, a inspiração de toda uma trajetória

“Eu nunca imaginei que aquilo me guiaria para o meu destino”. É assim que Moon fala de seu primeiro encontro com seu mentor político, amigo de longa data e razão de uma de suas memórias mais dolorosas: o já falecido ex-presidente Roh Moo-hyun.

Os dois se encontraram pela primeira vez em 1982, quando Moon mudou-se para Busan, para abrir um pequeno escritório de advocacia, depois de não obter êxito na seleção para Juiz.

Moon Jae-in e seu mentor, o ex presidente Roh Moo-hyun.
Moon Jae-in e seu mentor, o ex presidente Roh Moo-hyun. Foto: Korea Herald.

Para Moon, Roh era uma figura peculiar no círculo do direito, livre de formalidades e ávido para usar sua experiência em função da criação da construção de um mundo melhor.

“Roh foi apenas diferente (de todos os outros advogados). Ele era natural, sem disfarces, e amigável,” diz Moon, em sua autobiografia política, intitulada ‘Destino’. “Uma vez, senti que ele também pertencia ao mesmo mundo que eu.”

Para Roh, o advogado novato de 29 anos era um lembrete do que ele originalmente desejava alcançar na sociedade onde estava inserido. Ao longo dos anos seguintes, os dois trabalharam como sócios em seu pequeno escritório de advocacia em Busan, desenvolvendo juntos as impressões de cada um e construindo uma solidariedade forte o suficiente para determinar o rumo da vida de Moon, ou ‘destino’, como os dois descreveram.

A parceria entre os dois pareceu ter encontrado uma ”encruzilhada” no meio do caminho quando Roh foi para Seul como legislador pela primeira vez. Já Moon, que nunca viu a si mesmo como político, escolheu ‘ficar para trás’. “Deixe-me resolver as coisas aqui e siga seu caminho”, foi a mensagem de Moon, para encorajar o seu colega, mas também confirmando a sua recusa em entrar para a política.

No entanto, ele mesmo voltaria atrás na decisão. Quando o ambicioso Roh conseguiu uma vitória dramática nas eleições presidenciais de 2002 como o segundo chefe de estado progressista, sucedendo Kim Dae-jung, Moon foi a primeira pessoa que ele recrutou para seu grupo de conselheiros.

“A Secretaria de assuntos civis da presidência será o primeiro e último posto (que eu irei assumir em Cheong Wa Dae). Não me peça para me engajar na política,” disse Moon relutantemente aceitando o pedido de ajuda de seu amigo.

Ele continuou fiel a sua declaração, servindo durante um ano inteiro na nova administração de Roh e depois demitiu-se, partindo para um tour pelas trilhas do Himalaia.

Mas, ele logo precisou voltar do Nepal para a Coreia quando soube da notícia de que Roh enfrentaria uma resolução da Assembleia Nacional que resultaria em impeachment, por alegadamente violar a neutralidade em suas campanhas passadas.

Dai em diante, ele permaneceu no escritório da presidência como secretário sênior de 2004 até 2007, e como chefe de gabinete até Fevereiro de 2008, ficando ao lado de Roh em seu turbulento mandato como chefe de estado.

Arrastado para a política

Quando Roh terminou seu mandato de cinco anos, em 2008 e retornou para a sua terra natal, Bongha, localizada na Província Gimhae, ao Sul de Gyeongsang, Moon deve ter pensado que sua prolongada carreira na política finalmente havia terminado.

Então, no ano seguinte viria a tragédia: o suicídio do ex-presidente, em meio a acusações de corrupção envolvendo membros de sua família.

O funeral de Roh Moo-hyun. Foto: Korea Herald.
O funeral de Roh Moo-hyun. Foto: Korea Herald.

Como seu amigo próximo e seu principal assistente, Moon esteve como o principal organizador do funeral, quando suas maneiras discretas e disciplinadas atraíram o olhar da opinião publica e eventualmente, tornaram-no a esperança de presidenciável do grupo liberal.

O que o deteve, por certo período, foi a sua relutância crônica em relação a esfera política. E também, o medo de seguir o caminho espinhoso de Roh.

Em Junho de 2012, o ano da 18ª eleição presidencial, Moon cedeu as pressões e pulou para a corrida presidencial.

Apesar dos inúmeros desafios, Moon engajou-se em uma competição de duas vias contra a rival conservadora Park Geun-hye. O maior obstáculo na época, foi a unificação da candidatura com o candidato independente Ahn Cheol-soo, um evento que aconteceu faltando menos de um mês para o dia da pesquisa eleitoral.

Mas, mesmo com todo o suporte dos votos dos progressistas, Moon não conseguiu derrotar Park. Os resultados dele nas pesquisas, eram em torno dos 48%, percentual alto para um candidato derrotado.

O ‘novo Moon’ surge em 2017

“Desde a (eleição de 2012), tudo era destino. Mas, de agora em diante, eu preciso começar tudo outra vez com meu sentimento e missão renovados”, escreveu ele em seu livro “14 de Dezembro, o fim ainda é um novo começo,” no ano de 2013, quebrando seu longo isolamento e sinalizando a sua volta para a política.

Sua aparição não significou apenas que a principal esperança para a ala liberal havia voltado, mas também reacendeu a disputa entre os grupos pró-Roh e pró-Moon e seus dissidentes.

Mas, o novo Moon escolheu ”agarrar o touro pelos chifres,” com ações ousadas, nos momentos certos e se preparando para mais uma corrida presidencial. Mesmo quando um grupo de dissidentes desligou-se do partido junto com Ahn, estabelecendo o ‘Partido Popular’, Moon manteve segura sua posição.

As séries de irregularidades e tragédias em massa que ocorreram durante o governo da ex-presidente Park Geun-hye, como a tragédia da Balsa Sewol e o extenso escândalo de corrupção envolvendo a presidente e sua amiga de longa data, fizeram Moon se esforçar ao máximo para mudar a chefia política da nação.

“Toda vez que a nação enfrentava grandes crises, eu não pude fazer outra coisa senão pensar que nada disso teria acontecido se eu não tivesse perdido a última eleição”, disse Moon em mensagem exibida na televisão, no mês passado.

“Eu me arrependo por não estar preparado o suficiente na última eleição presidencial, e por isso eu estou mais ávido e verdadeiramente preparado desta vez,” disse ele.


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