Com a ambiciosa ideia de trazer insights sobre os esforços da sociedade e do governo sul-coreanos em acompanhar e assimilar os avanços recentes que proporcionaram reconhecimento global ao país, iniciamos hoje A Moderna Joseon, a mais nova coluna do Koreapost! A fim de entender, mesmo que de forma cosmética, fenômenos muito característicos – se não singulares – da Coreia do Sul, navegaremos por temas como tecnologia, inovação, educação, política doméstica, filosofia e tradição.

Uma dose saudável de criticidade será colocada em cada postagem. Esperamos expô-los a um conteúdo de qualidade capaz de suscitar a curiosidade e, se possível, o singelo interesse por uma sociedade tão distante – cultural e geograficamente – da nossa, mas que, justamente por isso, merece ser compreendida. Nunca esquecendo de manter uma mente aberta, aproveitem essa jornada!

O início do mês de abril foi marcado por fortes emoções na Coreia do Sul. O país foi o primeiro a lançar uma rede nacional de telefonia móvel de quinta geração (5G). Conquistar esse posto, além de alimentar o ego de uma nação já reconhecida por seu alto nível tecnológico, mostra ao mundo que a Coreia não está disposta a ficar para trás nessa empreitada.

O 5G, muito em voga nos últimos tempos, notadamente devido à frenética competição entre Estados Unidos e China por tomar a frente em seu desenvolvimento e controle, promete revolucionar as telecomunicações. Estima-se que o 5G ofereça velocidade de dados 20 a 100 vezes superior ao 4G. Na prática, isso permite que usuários façam o download de filmes em menos de um minuto. Esse exemplo, dentre muitos, é uma amostra do quão poderosa é essa tecnologia e os avanços que ela será capaz de impulsionar.

Vale mencionar que o 5G já era utilizado para conexões domésticas em algumas cidades dos Estados Unidos desde outubro de 2018, e na própria Coreia desde dezembro. A comercialização do serviço 5G móvel foi o importante passo encabeçado pelo país há poucas semanas – e que também pretende ser dado por China e Japão ainda esse ano.

Coreia do Sul antecipa lançamento da rede 5G para vencer a concorrência (Foto: Destak Jornal)

A ativação do 5G móvel na Coreia do Sul foi antecipada em dois dias, quando notícias de que a operadora estadunidense Verizon estaria prestes a iniciar operação similar. Nessa louca corrida por assegurar o pioneirismo, na noite do dia 3 (horário da Coreia), as três grandes operadoras de telefonia móvel do país, SK Telecom, KT e LG U+, distribuíram smartphones Samsung Galaxy S10 5G, já conectados à rede 5G móvel sul-coreana, a personalidades do país.

A SK Telecom, a maior dentre as três operadoras, anunciou que 6 celebridades tiveram acesso ao seu serviço, incluindo dois integrantes do grupo de K-pop EXO e a ex-patinadora Kim Yu-na. Com essa manobra, os coreanos bateram o anúncio da Verizon por uma margem de duas horas e garantiram o tão desejado “título”.

As vendas para o público em geral, contudo, só aconteceu no dia 5, em coordenação com o lançamento do smartphone da Samsung apenas citado, que curiosamente é o único aparelho compatível ao 5G móvel até o momento. Apesar do alto investimento que implica ter em mãos um aparelho desses – algo em torno de R$4700 -, a expectativa é que um em dez coreanos tenha um smartphone 5G em 2020.

Samsung Galaxy S10 5G (Foto: T3.com)

A Coreia do Sul possui atualmente 2.051 patentes vinculadas à tecnologia 5G, estando atrás somente da China. Até 2026, o país espera controlar 15% do mercado global do 5G, que chegará a valer cerca de um trilhão de dólares, segundo estimativas apresentadas pelo Vice-Ministro da Ciência e Tecnologia Min Won-ki.

Nesse mesmo ano de 2026, graças ao avanço das tecnologias 5G, o país ambiciona criar 600.000 novos postos de trabalho e abrigar um mercado doméstico do 5G de mais de US$38 bilhões.

Que Seul irá capitalizar por ser o primeiro país do mundo a lançar comercialmente serviços de internet 5G é indiscutível, mesmo porque isso já vem se concretizando desde o início de abril. É igualmente axiomático o potencial dessa nova tecnologia em criar novos nichos de mercado, além de gerar maior produtividade e oportunidades de crescimento a diversos setores já existentes. Resta, portanto, questionar: estaríamos nós na ante sala de uma das maiores inovações de todos os tempos?

A tecnologia 5G já está sendo considerada parte imprescindível da Quarta Revolução Industrial, a chamada Indústria 4.0. Com a promessa de transformar não só as telecomunicações, mas também campos que abrangem desde o desenvolvimento de cidades inteligentes e carros autônomos até a indústria de drones e de games, com avanços significativos em VR (realidade virtual) e AR (realidade aumentada), parece difícil não responder de forma afirmativa à pergunta feita acima.

Evento de lançamento da SK Telecom em Seul no dia 5 de abril (Foto: AFP/ Ed Jones)

No que se refere à Coreia do Sul, entretanto, o próprio Vice-Ministro Min reconheceu que a tecnologia 5G possui grande potencial tanto para criar quanto para destruir empregos, e admitiu que “para o 5G especificamente, nós focamos na criação de emprego, não fizemos uma análise de perdas de postos de trabalho”.

Sua declaração deve ser recebida com cautela, visto que o país acumula contradições. Apesar de rico, desenvolvido e com oferta abundante de mão de obra qualificada, o mercado de trabalho sul-coreano não logra absorver todas as pessoas em idade produtiva. No início de 2019, a taxa de desemprego atingiu o seu ponto mais alto desde a crise financeira mundial. O desemprego entre jovens, por sua vez, chegou a 10.5% (OCDE 2018), tendo apresentado a sua maior alta em 19 anos, com alguns especialistas qualificando a situação como “crise”.

Ainda, apesar de gozar de uma infraestrutura digital invejável, a população da Coreia do Sul lida com um grande número de regulações e burocracias relacionadas a serviços bancários e de compras online, além de enfrentar um forte cerceamento online, observado, por exemplo, em temas envolvendo a Coreia do Norte.

O que há de certo, em meio a um futuro aparentemente promissor, mas com desafios a serem melhor avaliados, é que a Coreia do Sul não deve ser subestimada. Há menos de 60 anos, devastado pela guerra, era um dos países mais pobres do mundo e recipiente de auxílio ao desenvolvimento. Hoje, lidera, junto a um grupo seleto de potências, o que é considerado por muitos o maior avanço tecnológico dos tempos recentes.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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