Oi gente, turubom com vocês?

Comigo está tudo bem, sim, mesmo com tudo o que está acontecendo com o Coronavírus, e a Coreia sendo agora o segundo país com maior incidência de casos, chegando a mais 3.000 casos enquanto escrevo este texto.

O resultado mais negativo pra mim desse aumento de casos foi que as minhas aulas foram adiadas, em duas semanas, e se isso já não fosse o suficiente, nas primeiras duas semanas, as aulas serão dadas pela internet. Não vou mentir, essa “self-quarentena” está me deixando louquinha, afinal, já é complicado ter 3 meses de férias, não poder ir para casa e ainda ter que ficar trancada no dormitório. Tô vendo muitas séries e lendo bastante. Mas mesmo assim, ainda é difícil, porque eu quero sair e ver o mundo sabe? Respirar ar puro, andar um pouco. Mas o governo tem mandado 6 alertas ou mais por dia, pedindo que a gente fique em casa o máximo possível.

E eu com a minha mentalidade brasileira fico tipo “Amigo… eu sei que você está preocupado, mas isso é só uma gripe!!!”. Minha mãe disse que no Brasil já morreram 5.700 pessoas de dengue desde janeiro, e ninguém faz alarde, porque o Brasil é enorme e sendo um país sofrido, pra gente, é normal. Até nos Estados Unidos, país dito de primeiro mundo, no ano passado, cerca de 10.000 pessoas morreram de gripe comum!  Então para todo mundo que está achando que é o Coronavírus é o sinal do fim dos tempos, relaxa, já tá provado que ele mata menos que a gripe comum ou que outras doenças.

Eu, no modelito Coronavírus de todo dia.

Agora passando para um tópico um pouco mais espinhoso…

Eu vou usar esse texto para desabafar um pouco, mas antes de eu começar eu preciso dizer que – Eu amo morar na Coreia, é um país incrível, com uma cultura rica, morar aqui é seguro e essa bolsa que eu recebi é uma benção sem tamanho na minha vida e de muitos outros estudantes.

Porém, em situações como esta, de epidemia, acho que nós vemos surgir o pior lado dos seres humanos e na Coreia não está sendo diferente. Eu nunca abordei este assunto aqui, mas na verdade, a ideia do Koreapost, sempre foi passar para os leitores a realidade da Coreia – o lado bom e o lado ruim. Eu já sabia que os coreanos tem um falso senso de superioridade, talvez construído para se defender de uma possível nova dominação estrangeira (como a que ocorreu durante 40 anos – a dominação japonesa).

A necessidade de reafirmar a identidade da Coreia como nação após o fim da 2ª Guerra, incutiu em algumas pessoas uma ideia de que os coreanos são superiores em tudo. Se um problema existe não é culpa deles, é sempre culpa dos estrangeiros. Antes de vir pra cá, na verdade, até antes de morar em Seul (porque eu nunca tinha sido vítima ou presenciado xenofobia quando vivi em Sunchon em 2016 ou em Busan em 2018), eu não achava que era assim tão na cara, mas aparentemente, eu estava errada.

Assim que essa história de Coronavírus começou, mais de dez restaurantes pararam de aceitar a entrada de estrangeiros no estabelecimento, e eu fiquei tipo “Oi? Nenhum dos casos registrados de coronavírus são estrangeiros, são todos coreanos!“. E outra coisa, enquanto nós estrangeiros, estamos fazendo todo o possível para nos proteger, a gente vê velhinhos coreanos saírem por aí sem máscara e tossirem sem cobrir a boca no metrô sem a menor cerimônia!

Na verdade, vários outros brasileiros já haviam contado histórias sobre como haviam sido vítimas de xenofobia. Só que outro dia, infelizmente, eu vi com meus próprios olhos. Eu  tive que ir na polícia com a minha colega de quarto, da Indonésia, que é muçulmana. A Aurora é o ser mais fofo e correto dessa terra. Ela foi na polícia porque foi vítima de um golpe! Quando nós chegamos, eles não me deixaram entrar com ela na sala de interrogatório, então chamaram uma tradutora. Infelizmente, esta mulher deu o pior exemplo de como uma pessoa pode ser preconceituosa com estrangeiros na Coreia.

Ela automaticamente pensou que a minha amiga fosse a pessoa que cometeu o golpe, e desde o primeiro momento, ela ficou falando que era melhor ela simplesmente confessar e parar de enrolar o policial, porque claramente, uma coreana não seria capaz de fazer algo assim e que ela como “muçulmana”, era fundamentalmente alguém de má índole. Ela ainda teve a pachorra de comentar, quando descobriu que eu e a Aurora éramos bolsistas do governo, que ela odiava que o governo atual estivesse dando esse “mimo” para os estrangeiros em vez de investir nos estudantes locais, e que nós deveríamos mostrar mais respeito a ela porque são os impostos que ela paga que pagam pela nossa vida.

Eu e a Aurora, da Indonésia, que já era minha amiga, mas agora também é colega de quarto. Uma das pessoas mais fofas que conheci aqui na Coreia.

Graças a Deus o policial era legal, e percebeu que a Aurora estava falando a verdade, e nós conseguimos ir embora sem ela ser incriminada por nada. Infelizmente ela não conseguiu o dinheiro dela de volta.

Eu detesto falar isso, mas as vezes, quando eu passo por esse tipo de coisa, eu sinto que nós estrangeiros estamos sendo tratados como sujos, como se nós não fôssemos seres humanos. Claro que existem coreanos legais, que são mente aberta, e são eles que mantêm a minha sanidade, pessoas sem preconceito, como todo mundo deveria ser. Os coreanos comentam bastante que sofrem preconceito fora da Coreia, e geralmente não percebem que fazem o mesmo com os estrangeiros aqui.

Infelizmente, há uma parcela da população coreana, que realmente envergonha o seu país – encaram os estrangeiros com cara feia, falam grosserias alto, em coreano, achando que nós não vamos entender, fazem comentários racistas, e se você for mulher, os comentários passam a ser machistas. Evitam contato físico, evitam sentar do lado da gente no metrô. Mas quando querem treinar o inglês, vem correndo, e quando não precisam mais da gente, desaparecem. É o famoso “ghosting”, bem comum por aqui.

De novo, eu amo viver na Coreia, mas gostaria de que as pessoas que pensam que a Coreia é exatamente como nos dramas ou é apenas Kpop, que leiam esse texto e reflitam. Vocês tem que vir pra cá sabendo o que vão enfrentar e que apesar de tudo, vale à pena.

É óbvio que em todos os lugares no mundo existem problemas desta natureza, até no Brasil, mas para um país que vê na imigração uma forma de sanar o problema da baixa natalidade do país (e isso já foi dito claramente por pesquisadores, tem até texto no KP sobre isso), eles precisam tratar melhor os estrangeiros. Faltam leis anti-preconceito mas falta também um pouco de conscientização e inteligência emocional. E em tempos de epidemia, de histeria coletiva, isso fica ainda mais difícil não é?

Mas, como eu ainda tenho 3 anos aqui, eu tenho muita esperança. E minha intenção com este texto é que as pessoas entendam que um lugar pode ser muito bom, mesmo que não seja perfeito, desde que você o conheça bem e consiga enxergar e aceitar essa diferença.

Até mês que vem, quando eu espero ter melhores notícias sobre tudo!


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns Duda pela reflexão e colocar que nem aqui nem em qualquer outra parte desse nosso mundo, estaremos livres de qualquer tipo de preconceito seja de quem vier. Poucas cabeças como a sua e outras que conhecemos bem,são capazes de lidar tão honesta e sinceramente com o que se passa em relação à xenofobia. Continue firme para que estas atitudes não a perturbem no que tange atingir os seus objetivos. Amo você e quisera ter a sua força e coragem!!!

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